A Confederação Brasileira dos Trabalhadores de Pesca e Aquicultura (CBPA), sediada em uma pequena sala de 35 m² no Setor Bancário Sul, em Brasília, é uma das entidades investigadas por faturar R$ 221,8 milhões no esquema conhecido como Farra do INSS. Seu presidente, Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, um aposentado com passado conturbado, foi preso em 2015 durante a Operação Enredados, deflagrada pela Polícia Federal. Na ocasião, ele foi acusado de liderar uma organização criminosa envolvida em crimes ambientais e contra a administração pública, atuando junto ao extinto Ministério da Pesca e Aquicultura. As investigações revelaram ações ilícitas, como a emissão de licenças para venda de arraias e ampliação de estocagem por empresas laranjas. Abraão foi solto em janeiro de 2016 após solicitação da defesa, mas o processo ainda tramita na Justiça. Em 2020, tornou-se réu por falsidade ideológica em uma ação penal eleitoral, decorrente de desdobramentos da mesma operação, por supostamente usar contas de terceiros para ocultar valores em sua campanha a deputado federal em 2014, prática conhecida como caixa dois. Ele foi condenado em agosto de 2025 e ainda pode recorrer.
Recentemente, em novembro deste ano, Abraão foi preso pela CPMI do INSS sob acusação de falso testemunho, após negar conhecer o tesoureiro da CBPA, Gabriel Negreiros, que é padrinho de um de seus netos. Durante a sessão, deputados apresentaram evidências de depósitos de R$ 5 milhões e fotos que contradiziam suas declarações, levando à sua liberação mediante fiança. Abraão tem ligações políticas, tendo comandado o Republicanos no Rio Grande do Norte e se candidatado a deputado federal pelo partido em 2018. Ele mantém relações com figuras do partido e do INSS, como o ex-diretor de benefícios André Fidelis, que participou de eventos da confederação. A CBPA, fundada em 2020, obteve acordo com o INSS em 2022 e viu seu número de associados explodir de zero para 757 mil até 2025, apesar de contar com apenas uma funcionária em horário reduzido. Relatórios da Controladoria-Geral da União apontam suspeitas de irregularidades, como contratações vedadas para captação de filiados e tentativas de descontos em benefícios de pessoas falecidas.
O escândalo da Farra do INSS, revelado em reportagens a partir de dezembro de 2023, levou a inquéritos da Polícia Federal e da CGU, resultando em demissões no INSS e no Ministério da Previdência. A CBPA é suspeita de fraudes em descontos não autorizados, com 99% dos 215 mil aposentados vinculados alegando não terem permitido as deduções. A entidade não possui infraestrutura para gerir milhares de associados em mais de 3,6 mil municípios, e seu crescimento exponencial, de quatro para 445 mil filiados em poucos meses, é visto como improvável sem violações aos acordos técnicos.
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