Nas ruas de Belém, sob o entardecer amazônico, centenas de vozes ecoaram o lema “a morte da floresta é o fim da nossa vida”, enquanto lideranças extrativistas de diversos biomas brasileiros marchavam em defesa de seus territórios e do equilíbrio ecológico. O Porongaço dos Povos da Floresta reuniu seringueiros, castanheiros, ribeirinhos, pescadores artesanais e quebradeiras de coco, iluminando o caminho com as chamas das porongas – lamparinas tradicionais que simbolizam a luta histórica do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), fundado em 1985 sob a influência de Chico Mendes nos seringais do Acre. Essa caminhada, paralela às negociações da COP30 na capital paraense, destacou o papel vital das reservas de uso sustentável no combate às mudanças climáticas, com participantes percorrendo da Praça Eneida de Moraes até a Aldeia Cabana, no bairro Pedreira, carregando não apenas luzes, mas também uma mensagem de resistência contra a violência, grilagem e destruição ambiental.
Letícia Moraes, vice-presidente do CNS e extrativista da Ilha do Marajó, expressou a conexão profunda entre as comunidades e a natureza: “Nós compreendemos o território como extensão dos nossos corpos. Se a floresta não está bem, nós não estamos bem”. Ela enfatizou que territórios geridos por povos tradicionais são os únicos com florestas vivas, preservando mais de 42 milhões de hectares que armazenam 25,5 bilhões de toneladas de CO2 equivalente – o equivalente a 11 anos de emissões totais do Brasil. Na COP30, o líder Joaquim Belo representa essas comunidades, pleiteando a inclusão de seus serviços ecossistêmicos nas metas climáticas, afirmando que “nós somos solução para diversos problemas das mudanças climáticas, porque cuidamos da floresta”.
Ao final da marcha, um documento do CNS foi entregue à ministra Marina Silva, que, recordando sua trajetória como seringueira ao lado de Chico Mendes, elogiou o modo de vida dessas populações como uma “tecnologia” natural para proteger a biodiversidade e sequestrar carbono. O texto reivindica o reconhecimento formal das reservas extrativistas nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) e investimentos em políticas de adaptação, com foco em proteção territorial e práticas sustentáveis. Marina observou que “é preciso que as políticas públicas sejam cada vez mais ampliadas”, destacando o papel desses guardiões como o coração pulsante do planeta em meio à crise climática.
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