Nas primeiras luzes da manhã desta sexta-feira (14), em Belém do Pará, o ar úmido da Amazônia carregava um eco de resistência ancestral. Um grupo de 90 indígenas da etnia Munduruku, incluindo mulheres, caciques, jovens e crianças com bebês no colo, ocupou pacificamente a área externa de acesso à Zona Azul da COP30, o coração das negociações climáticas globais. Com cartazes que gritavam “Nossa floresta não está à venda” e “Não negociamos a Mãe Natureza”, eles barraram temporariamente a entrada de negociadores e credenciados, exigindo uma reunião de emergência com o presidente Lula. A manifestação, que começou por volta das 5h40, transformou o espaço reservado em um palco de vozes silenciadas, onde os Munduruku, vindos principalmente da bacia do Rio Tapajós, no oeste do Pará, expressavam sua frustração com as negociações internacionais que, para eles, reduzem as matas nativas a meros ativos de crédito de carbono.
“Exigimos nosso direito aqui. Nós mulheres, nós caciques, jovens, crianças, com nossos bebês no colo. Exigimos a presença do presidente Lula. Mas infelizmente, a gente não consegue, como sempre. Sempre somos barrados, nunca fomos ouvidos”, lamentou uma das manifestantes, capturando o sentimento de exclusão que permeia o grupo. Eles criticam a COP por priorizar interesses de países e empresas destruidoras, deixando de lado a defesa real dos territórios indígenas. “Deixa a população sem educação, sem saúde. E cadê a Justiça pra nós, pra defender aqui? Cadê o mundo, que fala que defende os territórios, que defende a Amazônia? A COP não fala por nós”, afirmou outra voz do protesto. Além disso, cobram a retirada imediata de invasores das terras indígenas e o fim do Marco Temporal, lei que restringe direitos territoriais aos povos originários apenas às áreas ocupadas em 1988, data da promulgação da Constituição Federal.
Apesar da presença de soldados do Exército que bloquearam o avanço, o protesto manteve-se pacífico, com participantes formando um cordão humano para proteger os indígenas. O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, foi pessoalmente ao local para dialogar, acompanhado pelo advogado Marco Apolo Santana, da Associação Wakoborun, que representa os Munduruku. “Elas se sentem excluídas. São as mesmas [pessoas] que fecharam a BR-163. Ou seja: parece que os governantes só ouvem quando o pessoal consegue fazer alguma manifestação, né? Felizmente, não houve violência. Houve um diálogo com o presidente da COP. Vai ter uma reunião agora, e espero que seja resolvido da melhor forma possível”, comentou o advogado. Um acesso alternativo foi aberto, permitindo a continuidade da conferência, mas o ato dos Munduruku ecoa como um lembrete vivo de que as vozes da floresta precisam ser ouvidas além das salas de negociação.
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