Segurança

A tenente que quebrou o silêncio no caso do Massacre de Paraisópolis

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Em uma sala de audiências lotada no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, a policial militar Aline Ferreira Inácio, ainda na ativa, emergiu como a única voz disposta a se pronunciar sobre o trágico episódio de dezembro de 2019, conhecido como Massacre de Paraisópolis. Diante do juiz Antônio Carlos Pontes de Souza, ela defendeu a ação da corporação como legítima defesa, ressaltando que nenhum policial sofreu ferimentos graves durante a operação no Baile da DZ7. Como comandante do efetivo, Aline enfrenta acusações de homicídio ao lado de outros 11 agentes, todos potencialmente sujeitos a júri popular. Enquanto seus colegas optaram pelo silêncio para evitar contradições, ela reiterou a versão oficial: o reforço policial foi acionado para proteger uma viatura atacada, após dois suspeitos em uma motocicleta iniciarem tiros, causando pânico e correria. Do lado de fora, centenas de jovens, majoritariamente negros, protestavam em solidariedade às mães das vítimas, ecoando vozes de movimentos sociais contra a criminalização das periferias durante o governo de João Doria, que intensificou operações contra bailes funk naquele ano.

Contrapondo essa narrativa, familiares, advogados e a Defensoria Pública de São Paulo sustentam que os nove jovens mortos foram encurralados deliberadamente em uma viela estreita, resultando em asfixia – hipótese confirmada por uma biomédica da Unifesp em 2023, que descartou pisoteamento. Aline negou qualquer intenção de bloqueio ou emboscada, argumentando que a região extensa e desconhecida tornaria isso impossível, e que, se intencional, a tragédia seria ainda maior. Questionada sobre omissão de socorro, ela invocou protocolos da PM, admitindo que o treinamento em primeiros socorros é superficial e insuficiente para situações complexas, embora tenha atendido uma vítima em sua viatura. Agora, com manifestações escritas de acusação e defesa, o juiz pode encaminhar o caso ao Tribunal do Júri, reconhecendo dolo eventual – quando se assume o risco de mortes – ou reclassificá-lo como culposo, abrindo caminhos para absolvição ou absolvição sumária.

Para a advogada Rosa Cantal, que representa as famílias, o processo destaca a tensão entre versões oficiais e relatos comunitários, em um contexto de 7,5 mil operações policiais em 2019 sob pretextos como lei do silêncio e combate ao tráfico. Enquanto o julgamento avança, a memória das vítimas persiste nas ruas, convidando uma reflexão sobre justiça e equidade nas periferias paulistanas.

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