Em 1961, o arquiteto João Filgueiras Lima, conhecido como Lelé, ergueu sua primeira residência na capital federal, a pedido de César Prates, amigo e assessor do ex-presidente JK. Projetada com elementos inovadores para a época, a casa incorporava sheds que garantiam iluminação e ventilação naturais, integrando espaços internos e externos com materiais como pedra bruta, madeira e concreto aparente. No térreo, áreas sociais e de serviço fluíam harmoniosamente, enquanto o pavimento superior abrigava os quartos, com um jardim interno promovendo ventilação cruzada e painéis treliçados filtrando a luz e preservando a privacidade. Para o arquiteto Adalberto Vilela, professor da UnB, essa obra marca o início da trajetória de Lelé, ligada à tradição brasileira de valorizar materiais naturais e uma espacialidade leve. Ele recorda uma visita em 2011, quando já via sinais de abandono, mas admirava detalhes como a escada suspensa por pinos metálicos e um sistema de umidificação com água gotejando por pedras, antecipando preocupações com conforto e sustentabilidade no clima seco de Brasília.
Hoje, porém, a residência, pertencente a uma embaixada estrangeira, transformou-se em um cenário de deterioração, com ferrugem, rachaduras, pichações e vandalismo substituindo sua antiga beleza. Adriana Filgueiras Lima, filha de Lelé e também arquiteta, lamenta o estado atual, relembrando com carinho os espelhos d’água e jardins de sua infância, e teme que o abandono leve à demolição. Ela se oferece para ajudar na restauração, defendendo o valor histórico da casa. Vizinhos como a servidora pública Andrea Pires Figueiredo relatam transtornos diários, incluindo insegurança, acúmulo de água parada gerando focos de dengue, ratos e roubos – como o incidente de um caminhão que levou móveis sem autorização. A advogada Ana Cristina Santana menciona doenças em familiares causadas pelo abandono, enquanto a médica Simone Corrêa observa invasões por moradores de rua, com cercas caídas e portões danificados.
O advogado Hélio Figueiredo Júnior vai além, vendo no descaso uma falta de respeito ao patrimônio cultural de Brasília, cobrando providências da embaixada. Apesar de contatos, respostas são vagas, e órgãos como a Secretaria de Saúde e a Defesa Civil não podem intervir sem permissão, deixando a comunidade frustrada e o legado de Lelé em risco iminente.
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