Em meio às ruas movimentadas de cidades como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, uma realidade sombria se desenrola diariamente: em 2024, 11 pessoas foram mortas por dia pela polícia em nove estados brasileiros, com pelo menos oito delas sendo negras. Esses números, revelados pelo boletim Pele Alvo da Rede de Observatórios da Segurança, pintam um quadro de desigualdade que ecoa nas periferias e favelas, onde jovens entre 18 e 29 anos representam 57,1% das vítimas, totalizando 2.324 vidas interrompidas. O estudo, que abrange Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo, registra 4.068 mortes no ano passado, um leve aumento em relação às 4.025 de 2023. Francine Ribeiro, pesquisadora da rede, descreve isso como um “modo guerra” adotado pelas forças de segurança, sem investimentos em prevenção ou integração com outros setores, perpetuando um ciclo de violência que ignora raízes sociais mais profundas.
A disparidade racial surge como o traço mais chocante dessa narrativa: pessoas negras têm 4,2 vezes mais chances de serem mortas pela polícia do que brancas, com taxas alarmantes em estados como a Bahia, onde 11,5 negros são mortos a cada 100 mil habitantes, contra apenas 2 para brancos. No Pará, os números são 8,1 contra 3,2, e no Rio de Janeiro, 5,9 contra 1,3. Em todos os estados analisados, a proporção de negros entre os mortos supera sua presença na população geral – na Bahia, 95,7% das vítimas são pretas ou pardas, embora representem 79,7% dos moradores; no Rio, 86,1% contra 57,8%. O boletim destaca ainda um aumento de 22,1% nas mortes de adolescentes de 12 a 17 anos, somando 297 casos, e nota variações regionais: enquanto o Rio viu uma queda de 61,2% em seis anos graças à ADPF das Favelas, São Paulo registra alta de 93,8% desde 2022, revertendo ganhos com câmeras corporais.
Francine Ribeiro alerta que sem políticas estruturadas de prevenção, conectadas a outras áreas públicas, esse padrão letal persiste, especialmente na Bahia, a mais letal com 1.556 mortes em 2024, ligadas a conflitos de facções. Os pesquisadores recomendam abandonar estratégias falhas e apostar em ações comprovadas, como limites em operações policiais, para romper o ciclo de insegurança que afeta especialmente os jovens nas cidades brasileiras.
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